Desde 1914
Mais de um século mantendo acesa a chama da arte.
A história do Conservatório de Música de Niterói se confunde com a própria história da cidade — atravessando guerras, crises e gerações sem nunca fechar as portas.
As origens
1914 — 1923: de sociedade de concertos a conservatório
Em 25 de janeiro de 1914, na residência do Maestro Cordiglio Lavalle, um grupo de professores de orquestra fundou a Sociedade Symphonica Fluminense — a primeira entidade de natureza artística de Niterói, criada para promover o progresso da música na cidade através de uma série de audições sinfônicas. Lavalle foi eleito seu primeiro presidente.
A Sociedade rapidamente ganhou espaço nos meios artísticos e sociais de Niterói e do Rio de Janeiro, realizando concertos no Teatro Municipal, na Rua 15 de Novembro, para onde passou a se reunir a partir de 1915. Ambiciosa, a Sociedade queria formar seus próprios instrumentistas — e não apenas depender de músicos já formados.
Essa ambição amadureceu em 1919 com a criação de uma Escola de Música de ensino gratuito, que obteve apoio oficial do governo de Raul Veiga. Em 1921, o Maestro Felício Toledo de Figueiredo — autor do hino de Niterói — assumiu a presidência da Sociedade. Nove anos após o início da jornada, em 1923, nasceu o Conservatório de Música do Estado do Rio de Janeiro, substituindo formalmente a Escola de Música, sob a presidência do Maestro Hernani Bastos.
Consolidação e resistência
1928 — 1939: aplausos, crise política e reinvenção
Sob a presidência do Maestro Castro Botelho, a partir de 1928, os espetáculos da Sociedade Symphonica se estendiam de janeiro a dezembro, sempre com salas lotadas. Até aquele ano, a orquestra já havia realizado 168 concertos, entre o Teatro Municipal e o salão da Escola Normal de Niterói — muitos deles com a participação dos próprios alunos.
"Toda quinta-feira, das 21h às 22h, exibia-se a orquestra" — as celebradas Quintas-Feiras Artísticas.
A Revolução de 1930 mudou tudo: a intervenção federal no Rio de Janeiro cortou a subvenção que o Conservatório recebia desde 1919, quase levando ao colapso a manutenção dos alunos. A instituição precisou recuar à condição de Conservatório Livre de Música, e a Sociedade Symphonica Fluminense foi extinta, dando lugar à Sociedade Cooperativa de Responsabilidade Limitada — com Felício Toledo eleito presidente de ambos os órgãos, social e pedagógico, em 1932.
A virada veio em 1936: por meio da Lei nº 24, de 21 de maio, o Conservatório foi oficialmente reconhecido como escola do estado. Em 1939, a Sociedade Cooperativa passou a se chamar Sociedade de Cultura Artística Limitada, iniciando a fase mais importante de sua história até então.
Compromisso social
1941 — 1956: acesso para todos e a chegada da família Vianna
Em 1941 e 1942, o Conservatório deu dois passos importantes rumo à democratização do ensino musical: criou a cadeira de canto orfeônico, aberta a todos os alunos, e fundou o Grêmio Carlos Gomes, destinado a garantir o ingresso de alunos carentes nos cursos de música.
O Maestro Felício Toledo faleceu em 1952, sucedido por José de Castro Botelho, que comandou a instituição até seu próprio falecimento, em 1956. Foi nesse momento que a instituição elegeu, pela primeira vez, uma mulher para sua presidência: Raymunda Vianna Magalhães, ex-aluna e professora de piano da escola, que já ocupava a vice-presidência ao lado de Botelho — início de quase sete décadas de gestão da família Vianna à frente do Conservatório.
Reconhecimento acadêmico
1965 — 1992: nível superior, parceria com a UFF e tombamento
Em 1965, após árdua luta, Raymunda Vianna conquistou um feito inédito no estado: o Decreto federal nº 55.913, de 12 de abril, elevou os cursos do Conservatório à categoria de nível superior — tornando-o o primeiro e único estabelecimento de ensino musical do território fluminense nessa categoria. No mesmo ano, foi firmado um convênio com a Universidade Federal Fluminense, que teve o Conservatório como sede de seu curso superior de música entre 1970 e 1990.
Reconhecendo sua importância histórica e arquitetônica, o casarão da Rua São Pedro — sede do Conservatório desde 1935 — recebeu o tombamento definitivo pela Lei nº 1.066, de 6 de maio de 1992, seguindo a Lei nº 827/1990 que determinou o processo.
O legado hoje
1994 — hoje: a quarta geração Vianna
Raymunda Vianna Magalhães faleceu em 1994. Sua irmã, Ruth Vianna — vice-presidente desde 1966, ex-aluna diplomada em 1938 e professora do Conservatório desde 1940, a convite do próprio Felício Toledo — assumiu a direção, dando continuidade à gestão da família.
Em 2012, a neta de Ruth, Isadora Vianna, assumiu a direção do Conservatório, reinvestindo na instituição toda a herança centenária recebida de seus antecessores. Sob sua direção, o CMN segue formando músicos, mantendo vivas suas tradições e ampliando seu alcance social — inclusive através de iniciativas como o projeto Música para Todos.
Nem mesmo as duas guerras mundiais fizeram o Conservatório fechar suas portas. Ao longo de mais de 110 anos, formou milhares de músicos — muitos deles hoje expoentes em palcos de diversos países —, consolidando-se como peça essencial do patrimônio imaterial de Niterói.
Em resumo